Racismo contra o filho é bater nos pais duas vezes

Vou pedir aquela licença especial neste espaço de samba, quilombismo e militância cultural/social/política/etc para falar de um assunto muito sério: O momento em que o racismo não nos pega diretamente, mas vai na fragilidade de uma criança, pra nos fazer sofrer duas vezes. Como vocês sabem, eu sou da Comunicação UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), então… sem delongas, ao assunto.

 

Renata Santos, 30 anos, sofreu racismo duas vezes no último dia 24 (de novembro), pois sua filha, uma menina de apenas 12 anos, chegou em casa num estado de choque tamanho que não conseguia nem verbalizar o que teria ocorrido pra que estivesse naquele estado de nervos tão alterado. Chorando a ponto de a amiguinha que a acompanhou até em casa precisar relatar à sua mãe o acontecido, a pequena Duda fez sua mãe se ver nela, tudo o que tinha passado na mesma idade e em outras épocas e quando eu li, eu SAGA, me vi também em Duda e este é um momento pra fazermos uma reflexão.

 

Ou melhor, você que lê que faça a reflexão, eu vou desabafar mesmo, pois também fiquei emocionado com o texto de Renata. Não preciso ser mãe nem pai de ninguém (aliás, nem sou mesmo), mas tenho familiares e filhos de amigos em jovens idades que já me relatam esse estresse e esse crime de racismo vivido na pele. Aliás, como diz uma amiga, “se não tem história assim pra contar, não é preto” e eu concordei tanto que vivo mencionando essa pérola tão concisa quanto verdadeira de nossa realidade. Enfim, vou destacar alguns pontos do que Renata falou, pra eu passar minhas próprias impressões.

 

Assim, eu compartilho minhas próprias experiências e mostro que Renata e Duda estão longe, muito longe de estarem sozinhas nessa. Assim, sem querer cair no clichê, SomosTodosDuda, pois, não somos apenas solidários, na verdade, somos colegas nesse tipo de vivência. DudaVocêÉLinda. Vou fazer o cruzamento do que Renata expôs com o que eu mesmo vivo escrevendo, pois o que temos em comum é a voz da experiência gritando diante de um pequeno que repete o filme e precisa de todo nosso apoio. Vou discorrer sobre minha infância preta suburbana ’80 e depois largo aí a postagem na íntegra.

 

“…sei que tem muitas meninas negras de cabelo crespo como o dela que sofrem muito nessa fase…”

No meu caso, de menino, o sofrer é um pouco diferente, pois a um menino não é tão cobrado que o cabelo seja aceitável, já que tínhamos o artifício de raspar a cabeça. Eu mesmo fui adepto durante maior parte da adolescência. Mas no caso das meninas, o cabelo é diretamente ligado à autoestima, à materialidade que induz às figuras femininas da sociedade a se espelharem num modelo branco, magro, cintura fina e quadris largos, cabelos escorridos e se possível, de coloração clara (assim como os olhos, mas seria mero bônus). Dá pra imaginar o que sofre quem vai se distanciando desse padrão? Negra, cabelos crespos, etc? Pois é, agora imagine isso na pré-adolescência, quando a menina está se descobrindo, crescendo, desenvolvendo a autoestima e é atacada num dos elementos mais delicados para mulheres em geral, sobretudo para o negro que vive sendo alvo de ofensas como se fosse um ‘branco errado’. Pois é… Apenas comecei.

 

“…não posso esconder minha filha em casa com medo dela sofrer…”

Pegando carona no gancho da frase anterior, na fase da adolescência é quando estamos mais inseguros, pois a inocência da infância vai dando lugar à necessidade e percepção de um lugar social. É nessa fase que se intensificam as cobranças – dos outros e de si mesmo – diante de um modelo, seja familiar, seja na TV, cinema, etc. O tempo todo somos bombardeados com peles claras, cabelos escorridos e essas coisas (é só ver 95% dos atores e atrizes da TV e cinema, capas de revistas, comerciais, etc). Não custa pra uma adolescente dessa idade se deixar levar pelo “encanto” do esticamento dos fios na base da química ou do ferro quente.

 

“…tem muitos adolescentes cruéis que seus pais jogam na escola sem dar um pingo de educação…”

 

Crianças não nascem sabendo que todos merecem o mesmo respeito independente da aparência. Ninguém nasce bom nem mau, mesmo que sejam facetas existentes e latentes na nossa psique. Então, o que uma criança faz é reproduzir o ambiente à sua volta (inclusive muita gente cresce e não consegue sair desse sistema de dependência do fator externo, mas falo isso em outro texto). Seja por ver fazer/falar ou por fazer/falar e não ser repreendido, muitos maus hábitos são passados de pai pra filho assim. Muito pai se mostra racista ao repassar isso para o filho em forma de ‘é só uma piada’ e quando o filho reproduz, ou tem vergonha de admitir ou apenas concorda e não faz nada pra ensinar que isso é errado. Muito pai racista até se orgulha. E é aí que nascem, crescem e se reproduzem os discursos do tipo ‘o politicamente correto está acabando com a liberdade de expressão’, porque idiotas assim não sabem se comunicar sem ofender e passam a culpar o ofendido por sua ‘censura’. Racismo é crime, só pra lembrar.

 

“…pior ainda é saber que um dos adolescentes é negro e mesmo assim zoava ela…”

 

Essa é pros Pelés e Fernandos Holiday da vida. É um reflexo infeliz da cultura de um país que foi invadido, colonizado e roubado por uma minoria europeia, mas com maioria negra, devido à escravidão. O que acontece, o negro é ofendido, acusado e julgado como errado por tudo. “Nego isso, nego aquilo”, ‘nego é f…’, ‘quando nego não faz na entrada…’ e essas aberrações. Junte-se às críticas e ‘piadas’ com cabelos crespos, narizes, lábios, cores (sim, a etnia negra engloba vários tons) e ZAZ! Muito dos nossos fazem o contrário do pai racista do item anterior. São negros que acatam essas críticas e aceitam como realidade esse mundo onde somos o ‘branco que deu errado’, onde se aceita a crítica, o racismo, tipo os negros da casa grande na escravidão, que queriam se sentir menos escravos destratando os coleguinhas do campo e dos trabalhos mais pesados. Ou ainda, a síndrome do senzalismo e do capitão-do mato: Negros oprimindo negros pra se sentirem mais bem aceitos pelo senhor do engenho. Eu, particularmente, diante de uma situação racista no trabalho, ouvi de uma colega negra com cabelos esticados: ‘gosto de você aqui, porque assim eles zoam você e me deixam em paz’. A saber, a zoação vinha de uma outra colega negra de cabelos esticados que se sentia o Samuel L Jackson no filme Django Livre (o negro fiel ao racista em busca de ascensão social).

 

“…quantas dudas não chegaram em casa ontem, vão chegar hoje e amanhã…”

 

Quantas Dudas não chegaram em casa naquele estado emocional ao longo da história? Muita gente tenta nos convencer de que o racismo é fato isolado, porque não têm capacidade de buscar informações, então, ficam dependendo de alguma situação isolada que extrapole as manchetes dos sites especializados. Assim, não observam o convívio nosso, ficam dependentes dos jornais convencionais pra prestar atenção no assunto. Mas digo de carteirinha, essa trolha acontece o tempo todo. Mesmo eu que já passei da idade ‘suspeita’ pra um preto pobre, ainda sou abordado na rua por policiais, porque o Estado não entende como cidadão um preto andando na rua sem que tenha que revistar, exigir documentos e tals. Na cabeça deles, o preto é o suspeito eterno e incondicional… aliás, a condição é ser preto. É assim que funciona o racismo, ele vai violentando nosso psicológico ao ponto de acharmos que estamos errados ou sozinhos demais pra reagir.

“…eu ia me calar, mas eu me calando, mas eu me calando, minha filha ia sofrer de novo e isso eu não posso permitir, porque já sofri quando criança e me calei…”

 

Cheguei muito em casa pra baixo depois de ouvir coisas na escola, na rua e muitas vinham de colegas, inclusive. E a gente vai ficando quieto, tentando fazer isso desaparecer por esquecimento, vai se silenciando, ficando tímido, ou idiota, como aqueles que preferem ofender outros negros – e a si mesmos – na esperança de que doa menos se a ofensa partir de nós antes que deles. É o mesmo que tomar o chicote do feitor pra bater nas próprias costas. E quando a gente lembra que isso tudo machucava na gente, ver um dos pequenos passar por isso dói duas vezes. A sensação de impotência e a vontade de resolver tudo num grito de desabafo são maiores que tudo.

 

“minha filha não sofre de hoje. Desde o prezinho, quando uma menina falou: ‘Não brinca com ela porque ela é preta’…”

 

Essa eu já passei literalmente, exatamente assim como ela descreve. Já estive, um pouco maiorzinho, numa roda daquelas de ‘verdade ou consequência’ onde sendo o único negro, a coleguinha metida a princesa vira, aponta pra mim e fala ‘posso beijar qualquer um, menos ele’. Fiquei quieto, porque ou estaria ali com eles me fazendo de piada ou não estaria com ninguém. Hoje, já tenho anos de experiência de vida e sei que é melhor fazer amizade com três cobras venenosas no meio da mata sem água pra beber do que aceitar se submeter a essa laia, mas naquela época, doeu. E vendo a pequena Duda ser a vítima mais recente, sabendo que enquanto este texto é escrito outras dúzias estão passando por isso também, só faz doer mais. Mas é uma dor mais ‘herói de ação’ do que ‘coitados de nos’. A diferença? Já viu nos filmes de ação como um vacilo do vilão é motivo do herói lutar incansavelmente? Pois é…

 

“Quantas vezes vou ver minha filha com medo de fazer amigos por causa da sua cor de pele, medo de ser rejeitada e abaixar a cabeça quando passa num grupinho de garotas com cor de pele clara…”

 

Nós, pretos do Brasil, somos constantemente ligados ao que não se quer ser, nem ter, nem estar por perto. No fim da adolescência, dei em cima de uma menina branca que me falou ‘fica muito perto não que você queima meu filme’. Tá, né? Além de desejar que tenha tido uma vida de rejeições pra entender o que é desprezar o coleguinha, o que mais se faz? Já vi, na escola, meninas negras passarem e meninos falarem ‘olha, fulano, sua mina ali’ e o outro respondendo ‘tá maluco? É sua, quero não!’. Além disso, de sermos usados como caricaturas humanas, ainda corremos o risco de fazer amizades brancas onde somos o alívio cômico, aquele mascote que, no ruim de tudo, o amiguinho vai poder olhar, fazer sua piada e pensar ‘que bom que pelo menos não sou preto’. Além de todo o peso da construção do país, ainda levamos eles nas costas pra objeto de apoio moral. Não brigue com o negro que fica arredio, desconfiado ou defensivo diante de amizades brancas. Apanhamos muito pra adotarmos essa postura. Ninguém que leva uma porrada está pronto pra esquecer e dar a cara de novo pra apanhar outra vez. Entenda nosso lado e respeite. Com o tempo a gente aprende a valorizar as verdadeiras amizades, pretas ou brancas.

 

“Se eu ficasse escrevendo todos os preconceitos que minha filha passou, não ia caber aqui”

 

Duda tem apenas 12 anos e sua mãe já fala isso. Imagina quantas vezes Renata não se calou ou preferiu ter fé de que nunca ia chegar a esse ponto de desespero da menina? Sim, a gente tem essa fase de querer tanto que isso passe que não comunica a ninguém, até porque muita gente, próxima até, vai te desencorajar a reagir. Vai fazer o Pelé e dizer que é só sorrir, levar um tapinha nas costas e seguir em frente. Eu com 12 anos já tinha ouvido todas as piadas possíveis com meu cabelo, minha cor, meu nariz e o pior: Eu já fui um desses babaquinhas pretos metidos a animal de estimação de branco, reproduzindo racismo contra os meus pra ver se desviava as atenções. Tentei ser o “preto legal” nas poucas vezes que abria a boca ou fazia algum gesto mais brusco. Lembre-se, eu não queria chamar atenção e se não tivesse jeito, queria mostrar para os algozes que eu não era seu alvo, nem inimigo. Covarde? Covarde. Muito! Mas como eu disse antes, alguns de nós simplesmente não suporta a pressão e eu fui um desses. Mas hoje eu tenho base pra chegar pra um pequeno primo na idade de Duda e falar ‘responde isso e isso se te ofenderem’. A satisfação vem ao ver seu sorriso e a frase ‘olha, eu não tinha pensado nisso’. Isso é armar nossos pequenos pra essa guerra de terror psicológico e social que se chama racismo.

 

Conclusão

 

Renata é um exemplo e que incentive outras mães, outras adolescentes, crianças, líderes comunitários, padres, X-men e quem mais for a abrir o verbo. Racismo não é tipo fada Sininho que a gente faz sumir apenas ignorando a existência. Se fosse assim, já tinha sumido de muitos lugares onde racistas falam ‘racismo é coisa da sua cabeça’. É preciso confrontar, combater, responder, reagir… porque racismo, sendo franco, amigos, não acredito que vá acabar em menos de 2500 anos (se ainda tiver universo até lá), mas a gente pode se impor e fazer com que esse ixo seja a verdadeira vergonha e não nossa denúncia. Muito preto se intimida e não quer parecer o chato que estraga a brincadeira, mesmo estando coberto de razão em se defender de algo que é tão bizarro que é considerado crime previsto em lei, sem direito a fiança e nem extinção por tempo decorrido.

 

Duda é uma pequena guerreira que, com certeza, vai poder usar sua própria história como exemplo de luta para outros, mais novos ou mais velhos. Deixa esse trauma passar que com o tempo a gente vai ficando calejado e aprende a lidar com mais dureza essa verdadeira violência que se chama racismo. E que Renata cobre da escola e dos pais dos idiotinhas mirins providências e punições.

 

maenegralinda

 

Fonte: Extra Online

 

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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